A chuva do caju havia se transformado em chuva de monções. Nuvens fornidas alvoroçaram o céu como uma manada de elefantes. Ora esgarçadas, como algodão fino, pulverizavam o ar da capital meio-nortista; ora robustas, assolavam a cidade com dilúvios de proporções bíblicas.
Em um dos poucos momentos de arrefecimento na precipitação, duas jovens no esplendor dos seus vinte e poucos anos conversam fervorosamente às margens do Poti nas imediações da Curva de São Paulo.
A primeira delas, a garota cor de jambo maduro desliza para dentro do rio. Coleta uma amostra de água. Analisa a olho nu e deposita o conteúdo cuidadosamente em um frasquinho repleto de uma solução-teste. Faz esse procedimento algumas vezes.
Concentração no trabalho e negligência com o entorno. A água turva próxima da nossa jovem cientista se atiça de maneira estranha, porém ela não percebe.

Instantes depois de a primeira embrenhar-se no rio, tomando todo o cuidado para não se esborrachar no leito pedregoso do Poti, a segunda moça esgueira-se por entre a mata ciliar. Sua pele, da cor de açúcar caramelizado, cintila ao sol das dez da manhã enquanto martela cirurgicamente um bloco rochoso com uma picareta. Deposita as amostras que se esmigalham sobre um lajedo acima da linha d’água. Habilmente, tateia sua mochila cheia de equipamentos. Cartola. Puxa de dentro da bolsa uma peneira e uma escova. Lapida minuciosamente um fragmento de rocha, dá-lhe umas escovadas, lava-o com o auxílio da peneira na correnteza do rio. Retira o material da água. Descarta uns pedaços insignificantes e separa em um recipiente de plástico as amostras para estudo futuro.
– Amiga, se a gente comprovar essa hipótese, poderemos ampliar a área do Parque Floresta Fóssil. A cidade só tem a ganhar com pais esta área de patrimônio natural.
– Será que é hoje que vamos encontrar vestígios de árvores fossilizadas aqui, depois da Curva São Paulo? Indagou com doce esperança na voz a moça cor de caramelo.

– Deus te ouça, amiga. Deus te ouça!
– Fora que vamos sair em várias revistas especializadas, nos tornaremos famosas e daremos entrevistas em todos os portais de notícias do Brasil.
– Você não existe! Duas pesquisadoras do Piauí? Famosas? Acorda pra realidade!
Retrucou a jovem cientista às gargalhadas, a essa altura com a maçã do rosto já avermelhada por conta do sol.
Sorridentes, as arqueólogas ignoravam a desventura que lhes faria ganhar os holofotes da mídia.
– Lá vem você com o seu pessimismo, Maria Amélia. Interrompe a garota cor de açaí.
– Melhor que ficar se iludindo com sonhos que nunca vão acontecer, dona Bruna Maria! Se concentra pra gente acabar logo e evitar ter que fazer tudo de novo, caso algum dado fique errado.
– Ah, amiga! A vida é mais do que estudo e trabalho.
De digressão em digressão, as colegas de trabalho dão uma pausa nas suas atividades.
– Eu sei, Maria, que sua rotina é super corrida e que você tem preocupações que eu pretendo ter só quando eu tiver cruzado a barreira dos 30 anos! Mas sei lá… tem vários lugares que a gente pode ir, ver gente nova, movimento.
– É que eu estou numa fase complicada. Muita coisa pra administrar se eu quiser dar uma saidinha de vez em quando. O Nando não me dá folga.
– Pelo menos você tem que administrar só um homem. Já eu… Você se lembra do Bruno? Que a gente chamava de Bruninho na escola, um moreninho de cabelo liso?
– Como esquecer, ele tinha até fã clube naquela época.
– Então, me viu na academia e não me reconheceu. Mas eu vi pelo espelho que ele estava só me secando. Aí ele chegou e, papo vai papo vem, trocamos telefone. Marcamos de nos ver na sexta.
– Rápidos vocês dois.
– O problema é que eu já tinha marcado de sair com o Fê no sábado. Estou com medo de dar choque. Marcar com dois caras assim um dia depois do outro pode dar treta. O que eu faço amiga.
– Bruna, a minha opinião você já sabe qual é. Depois você fica com fama…
– Só vou ter fama se eles descobrirem, e eu sou esperta. Jogo meu charminho e tenho os dois na palma da minha mão. Eles não vão nem desconfiar.
– Pois reza pra que isso aconteça mesmo. Você sabe do ditado: Teresina só tem 3 pessoas, eu, você e alguém com quem a gente já ficou.
– É, mas eu sou “novidade”. Antes de eu me tornar rata de academia e mudar meus hábitos, ninguém sabia que eu existia. Agora que o jogo virou, quem manda sou eu. Tenho mais é que aproveitar o meu momento, descontar o atrasado e ficar com quem eu sempre quis mas sempre me ignorou.
– Tudo bem! Mas vai com calma e te preserva. O mundo não vai acabar amanhã não.
Falatório sem propósito. Diálogos intermitentes repletos de amenidades infinitas…*
– Pode deixar, Madre Maria Amélia de Calcutá. Pudica assim, você deveria ter virado feira logo.
* … até a calmaria se transmuta em prólogo de tragédia.
– Só porque eu tenho meus princípios não quer dizer que… Você viu aquilo?!
– Aquilo o quê?
– Ali atrás de você! A água parece borbulhar.
Bruna Maria olha na direção para a qual a amiga apontou. Cara de desdém.
– Não é nada, só uma espuminha boba. Devo ter deixado cair um pouco de reagente sem querer.
– Muito estranho, pensei ter visto um vulto escuro sob a água. Vem mais pra perto da margem. Estou preocupada.
– Deve ter sido algum cardume de mandis ou de curimatás. Sem estresse!
– Sai da água, Bruna! Estou com um mau pressentimento. Suplicou Maria Amélia levando a mão ao peito, apertando o escapulário.

– Amiga, relaxa! Já disse que não tem problema alg…
Desatenção provocada por excesso de autoconfiança. Explosão em forma de geiser.
– Socorro! Tem alguma coisa puxando a minha perna!
Não houve tempo para reação. Bruna desapareceu em meio a cortina de gotículas de água e lama que havia emergido do Poti.
Maria Amélia é jogada para dentro da mata ciliar. Seus óculos de grau, mochila e equipamentos de pesquisa são arremessados cada um em uma direção. Miopia e confusão mental momentânea. As águas do Poti ainda se revoltavam como quando um jacaré ataca uma rês distraída.
Enquanto recuperava a lucidez, Maria Amélia percebe o vulto da amiga sendo tragado para dentro do rio. Grito de desespero abafado. O volume de água que jorrou para o alto cai suavemente em forma de névoa lactescente.

Maria Amélia apalpa o rosto, o abdômen e as coxas. Fisicamente, tudo em ordem.
Instintivamente, a jovem, com as mãos ainda trêmulas, confere os bolsos da sua calça. Celular. Sinal fraco. Salto de fé.
Antes de fazer a ligação para pedir socorro, Maria olha com ternura a imagem de proteção de tela. Na sua mente, um único pensamento: voltar para casa, beijar o marido e abraçar seu filho.
Por sorte, a nossa sobrevivente havia ligado pro cônjuge momentos antes de sair para coleta de material de estudo. Último registro de chamada. Ligar.
– Amor, você não vai acreditar na tragédia que acabou de acontecer! Diz nossa sobrevivente com voz embargada.
– Aconteceu alguma coisa grave? Onde você está? Grita Joel, o marido, do outro lado da linha.
– Estou no campo de pesquisa, vem aqui me buscar, por favor.
– Calma! Vou deixar o Nandinho na casa da sua mãe e sigo já pra te encontrar.
Amélia começa a rezar enquanto espera o resgate. Mão no peito. Sente o toque áureo da corrente que segurava um pingente. Sacramental, fé e prece:
– Obrigada, Nossa Senhora, por ter passado na frente!
. . .

G.S. ATHAYDE
– Escritor –
Autor do Romance Novembro
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